Durante muito tempo, o vereador Cara de Pau conseguiu sustentar uma posição confortável — e curiosamente tolerada. Falava como fiscal, discursava como indignado e se apresentava como voz crítica dos problemas cotidianos da cidade. Matagal, enxurradas, falta pontuais de medicamentos e serviços precários passaram a integrar sua retórica pública com frequência calculada.
Nos bastidores, porém, a realidade era menos heroica. O mandato orbitava a base governista, com indicações preservadas e espaços mantidos dentro da estrutura administrativa. Uma relação funcional, onde a crítica existia desde que não ultrapassasse o limite do inconveniente.
Esse equilíbrio ruiu quando o Executivo decidiu reagir. Num primeiro momento, o Prefeito exonerou dois indicados do Vereador, o que o fez dobrar a aposta, publicando ainda mais vídeos expondo os problemas cotidianos de toda e qualquer cidade no mundo, porém, nunca apresentando possíveis soluções, posteriormente veio a resposta da Prefeitura exonerando ainda mais indicados do Vereador. Essas exonerações encerraram, de forma abrupta, a convivência ambígua que sustentava sua atuação política. Sem cargos, o discurso mudou. Sem espaço, a postura endureceu. E a crítica, antes seletiva, ganhou tom de confronto.
A mudança repentina chama atenção não pela coragem, mas pelo tempo, porque só agora, depois do Vereador votar a favor do governo durante todo o primeiro ano de gestão e somente quando os seus indicados começaram a perder os seus cargos? Os problemas denunciados não são novos. O que é novo é a ausência de acomodação política. A indignação, que antes convivia com o governo, agora surge como ruptura — ainda que sem anúncio formal de divergência programática ou proposta alternativa clara.
O episódio expõe um padrão conhecido na política local: a linha tênue entre fiscalização e conveniência. Enquanto há espaço, há tolerância. Quando o espaço se fecha, instala-se o conflito. O que se apresenta como oposição, muitas vezes, nasce menos da discordância com a gestão e mais da perda de influência sobre ela.
Enquanto isso, a cidade segue enfrentando os mesmos desafios diários. O mato continua crescendo e enxurradas continuam invadindo ruas. A diferença é que agora essas pautas deixaram de ser instrumentos de negociação silenciosa e passaram a alimentar um embate público.
E assim, a cidade vira coadjuvante de uma novela ruim, onde os problemas reais seguem intactos, mas agora servem apenas como combustível para um ressentimento pessoal travestido de discurso público.
No fim, resta a pergunta que incomoda mais do que qualquer denúncia:
se tudo era tão grave assim, por que só virou intolerável quando os cargos caíram?
Essa resposta, curiosamente, o vereador evita dar.
Em política, coerência não se mede pelo volume do discurso, mas pela constância das atitudes. E é justamente aí que o episódio deixa sua marca mais profunda.
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